ENTREVISTAS

Wagner. Também conhecido como enciclopédia do esporte!

Pergunta clássica. Como você começou a pegar onda?

Eu morava em Ponta Negra desde criança, sempre estava na praia e era me difícil me tirar da água. Nessa época eu pegava onda, na verdade, pegava “jacaré”. Um dia, vi uma reportagem na TV sobre bodyboarding e fiquei fissurado. Foi paixão imediata (e alguns anos de insistência e luta até comprar a primeira prancha – usada, de uma prima da Aninha).

eu no mar 3

Como todos sabem, você passou um tempo no Canadá e agora está Brasília. Como é estar distante e ter que acompanhar todos os comentários nos grupos de whatsApp?

Um sofrimento!…rs. Estou fora de Natal há 12 anos, morando em Brasília. Acabo de voltar ao Brasil depois de um ano em Montreal, no Canadá, onde fui fazer parte do meu doutorado. E, enquanto eu congelava em temperaturas que chegavam a quase -40ºC, recebia fotos e vídeos dos meus amigos indo pro mar e arrebentando nas ondas. Muita injustiça e insensibilidade dessa ‘facção’ (liderada por Paulo André!)…rs. Mas, apesar do sofrimento (e de uma certa inveja), é muito ver esses amigos de mais de 20 anos se reunindo e surfando juntos. E melhor ainda é ver que estão todos com um excelente nível de surf (alguns chegam a humilhar).
Cite alguns momentos marcantes nas competições de que você participou.

De cara, meu primeiro campeonato foi marcante, uma etapa do Estadual da Abbern. Eu tinha apenas uns 4 ou 5 meses de surf e fui segundo colocado, na categoria amador júnior (numa final formada só por amigos). Outros campeonatos também foram marcantes, como O Visual O’Neil, que foi o primeiro grande campeonato, e no qual fiquei em 3º lugar. O Bicho d’Água também foi inesquecível, porque fui passando em primeiro em todas as baterias, com vários atletas de alto nível, inclusive de outros estados. Duas baterias que venci desse campeonato foram especiais: as quartas-de-final, contra meu xará Wagner Caetano, e a semifinal, contra Silvio José (primeira vez que ganhei dele, que sempre considerei um dos melhores atletas do Brasil). O mar tinha boas ondas e todos surfaram bem. Então, tê-los vencido foi demais. Na final, perdi pro Alberto Gama, de Sergipe, mas estava tão feliz com meu desempenho na competição, que me senti vencedor…rs. Também fui pra final numa etapa do circuito cearense, com boas ondas na Praia do Futuro. Agora, o mais importante mesmo foi a Copa Cavalo Marinho, um dos maiores campeonatos do Brasil, em Taiba (CE), em 1995. Eu estava há dois anos sem competir, mas foi dando tudo certo. Na semifinal, um dos adversários era o meu melhor amigo, Neildo Figueiredo (vulgo “A Lenda”). E passamos nós dois pra final, eu em primeiro, e ele em segundo. Na final, debaixo de muita chuva, o mar estava terrível! Umas merrecas sem força e sem qualidade. Mesmo assim, fiquei em terceiro lugar e recebi tanta coisa como premiação que, se tivesse viajado de avião (e não de Kombi – uma história hilária…rs), teria pago excesso de bagagem! Nesse mesmo ano, em julho, fui 9º colocado na etapa do mundial no Guarujá, em São Paulo. Campeonato inesquecível porque, além de toda a mega estrutura, ainda vi de perto grandes ídolos internacionais, como Mike Stewart, Jay Reale e muitos outros.
Fala ai uma onda inesquecível?

Putz, são tantas que fica até difícil… Mas me lembro muito bem de uma onda imensa em Rio Doce em que mandei um el rollo muito forte e que me fez voar alto. Estava uma tarde de sol, pouca gente na água e ondas muito grandes. Achei que ou eu morreria ou ficaria tetraplégico se errasse a manobra, mas a vontade de voar foi maior e deu tudo certo (ainda bem!). Também lembro do meu primeiro 360 aéreo, atrás do Morro (do Careca). Nessa época, a manobra era incomum. Ah, também teve uma vez que, quando estávamos voltando de trás do Morro, pela água (a partir das Tartarugas), veio uma onda muito lá dentro, perto de onde ficavam uns barcos. Comecei a remar e ninguém acreditou que eu conseguiria pegá-la. A onda era muito deitada, mas como sempre disseram que eu tinha motor, consegui pegá-la e acho que nunca manobrei tanto numa onda em toda a minha vida. Quase que deu cãibra…rs.

Agora uma vaca Inesquecível?

Também foi em Rio Doce, num outro dia de ondas muito grandes. De repente, sobe uma direita gigantesca. Todo mundo meio que amarelou e olhou pra mim, como quem diz: “Vai você, Wagner”. E eu fui! Quanto mais eu dropava, mais a onda subia, sempre muito buraco. Dei um el rollo bom, mas, na volta, a espuma estourou com tudo nas minhas costas, me deixando muito tempo debaixo d’água, rodando sem parar. Pior foi que, quando eu consegui voltar pra superfície, veio uma onda tão grande quanto e quebrou em cima de mim, me fazendo viver mais uns momentos de “Aquaman”. Foi um sufoco, mas depois daquela ali, fiquei preparado pra todas as demais vacas que tomei.
Melhor pico que já surfou?

Sou apaixonado por Rio Doce. Na época, eu e o Neildo íamos pra lá todo fim de semana. Pouca gente gostava, porque era perigoso e com ondas muito fortes e buraco. Mas era disso que eu gostava. Mas também já tive momentos incríveis em Ponta Negra que, quando dava onda, era clássico: linha perfeita, buraco. Ainda no RN, gosto muito dos picos da Via Costeira (Vila do Mar, Pinheiros etc). Conheci o famoso ‘Shore’ nas férias de 2014, e também gostei muito. E, claro, Pipa. Peguei um mar clássico lá. Estava voltando da farra, lá pelas 5h da manhã, quando vi o Pontal quebrando estilo Hawaii: Enorme e mega tubular. Jamais imaginei ver ondas daquelas no Estado. Corri pra pegar a prancha e caí no mar, morto de cansado, mas feliz. Fora do RN, Praia do Francês, em Alagoas, e o Arpoador, no Rio. Morei um tempinho em Copacabana e ia pra lá direto. Uma onda fantástica.
Quando vai vir pegar umas ondas com a galera de Natal?

Vou terminar o doutorado no final do ano. Aí, tiro férias e, com toda a certeza, vou pra Natal pra matar a secura de surfar. E na companhia dessa galera sensacional.

Foto Vem pro Mar
Pra finalizar. Como você é o cara que tem a melhor memoria que conheço, conta algumas histórias legais das antigas. O espaço está aberto pra você.

Cara, tem história que não acaba. Mas uma das mais tragicômicas foi nos idos de 95, quando estávamos indo pra Tabatinga num Fusca: Eu, minha então namorada, a irmã dela com o namorado e o Neildo. No caminho, íamos ouvindo uma fita (sim, fita cassete) do Zé Lezim da Paraíba, e morríamos de rir. Quando chegamos lá, o Neildo foi o primeiro a descer do carro e gritou: “ei, cadê as pranchas?”. Achamos que era brincadeira dele, mas saímos às pressas do carro. Nós as tínhamos deixado amarradas no bagageiro do teto do carro, só que, sabe-se lá como, elas se desprenderam, voaram e nós nem percebemos! Lembro que chorei de raiva, porque era exatamente a prancha que eu tinha ganho na premiação do Cavalo Marinho, e era simplesmente a melhor prancha que eu já tive. Muito boa mesmo! uma Faster (nem sei se ainda existe essa marca). Entramos no carro e fizemos o percurso de volta, parando em todos os lugares pra perguntar às pessoas se elas tinham visto “umas pranchas voando por aí”…rs. Claro que nunca as encontramos. E, apesar do trauma na hora, virou uma história hilária.

Outra história muito engraçada foi numa viagem para um campeonato em Fortaleza, em que praticamente passamos fome porque acabamos ficando numa casa do organizador do evento. Mas era uma casa vazia, sem ninguém e sem nada. Como a grana era curta (afinal, éramos adolescentes), passamos um dia à base de biscoito cream cracker, ki-suco de abacaxi diluído em MUITA água (para render bastante) e uma lata de leite condensado que o Mikael tinha levado da mercearia do pai dele.

Putz, isso me fez lembrar de várias outras histórias, mas não caberiam nessa entrevista.

 

 

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