ENTREVISTAS

Dudu Pedra. O rei de Itacoatiara

Foto: Renato de Paula

Foto: Renato de Paula

Como você começou no bodyboard?

Comecei bem novinho, com dez anos de idade. Foi quando eu ganhei da minha irmã mais velha um bodyboard e acho que só pode ter sido um presente de Deus mesmo, porque ganhar um bodyboard, tão novo assim, na praia de Itacoatiara, vivendo em Itacoatiara, eu gostando de praia. Uma praia que é tão propícia assim, então desde o momento em que eu ganhei este presente, eu já usei muito ele. Foi o melhor presente da minha vida. Depois dos dez anos eu comecei a ir a praia sozinho e comecei a praticar muito e me apaixonar até hoje. E até hoje parece que é o primeiro dia. Tenho a mesma secura de pegar onda.

Como é pra você ser reconhecido como o maior nome do bodyboarder em Itacoatiara?

Eu me sinto muito honrado de ter um nome forte aqui em Itacoatiara. Na verdade a praia me ajudou muito a me destacar, a alavancar a minha carreira porque é uma praia que, quem consegue domar estas ondas aqui, ela tem um repertório de divulgação, de mídia. Então, fico muito feliz de saber que tantos nomes, pessoas tão fortes já surfaram aqui, surfam aqui, moram aqui pelas redondezas e ter esse reconhecimento, não sozinho, junto com os outros também, junto com o José Otávio, com Guilherme Correia, Paulo Esteves em outra geração e uma nova geração aí, do João Zik. Enfim, eu fico muito feliz. Não é o que eu busco: reconhecimento. Eu busco trabalhar e ser bem-sucedido e o reconhecimento faz parte do bom trabalho.

Como grande conhecedor de Itacoatiara. Quais os principais perigos dessa onda?

O principal perigo da onda de Itacoatiara, na verdade não é da onda, é o mar. Porque é uma correnteza muito forte, quando você entra. Geralmente Itacoatiara sempre tem aquelas valas que jogam pra dentro. Então, acho que é uma praia impraticável pra o leigo, pra quem tá começando a pegar onda. O cara quem que conhecer corrente, tem que ter força, tem que ter condicionamento físico. Porque eu já ouvi falar, não sei se é verdade que, Itacoatiara está entre as cinco mais perigosas do mundo, em relação à corrente. São várias correntes oceânicas que passam aqui perto, então muita gente morre, some por causa disso. Acho que o perigo principal são as correntes porque quem não conhece muito não consegue identificar, não consegue ver. As ondas já assustam, as ondas já falam por si mesmo. Agora as correntes ficam escondidas, acho que esse é o fator mais perigoso.

Você já disse em entrevista que viajou muito e que mesmo conhecendo vários picos considera a onda Itacoatiara a melhor onda que já surfou. O que ela tem de tão especial?

Itacoatiara é muito especial pra o bodyboard na minha opinião, porque eu já viajei mesmo, como você disse e tem lugares que são perfeitos. O Tahiti pra mim é o melhor lugar do mundo, mas é só pra tubo, o Teahupoo é difícil você ter aquela junção pra dar aquele manobrão; México também é um lugar é alucinante, tem um pouco dos dois, de junção e de tubo; Hawaii, todos esses lugares lógico que são perfeitos, são os melhores lugares do mundo. Mas, quando eu chego em Itacoatiara e vejo que aqui você tem essa combinação perfeita de uma onda bem rápida, de um tubão, uma junção muito forte pra você dar aquele manobrão. Ali no Pampo tem uma onda que é muito maneira, faz um triângulo, vem uma lateral, faz aquele wedge que todo bodyboarder busca. Então, quando estou ali, muitas vezes sozinho, eu falo: puxa, não existe lugar no mundo que eu queria estar agora que não fosse aqui. O Shock é uma onda muito especial também, aquilo que só o bodyboarder consegue surfar, entendeu? Não tem como o melhor surfista do mundo chegar ali e fazer um drop às vezes, porque é uma onda muito seca, que você já dropa voando de cabeça pra baixo. Na verdade tem umas que nem de bodyboard dá mesmo. Então, é o desafio. Eu acho que o bodyboarder, no meu conceito é um cara que escolheu o esporte porque vai desafiar a onda no máximo que ela pode proporcionar, então a gente deitado consegue fazer isso. E Itacoatiara ela extrapola esse limite que o cara pode chegar, então é sempre desafiador.

Na sua opinião quem foi o grande nome do esporte no Brasil?

Acho que é muito complicado levantar um nome assim, porque muitos nomes, várias gerações já estão se passando aí, mas vou dar essa moral para os primeiros que fizeram um bom trabalho, que mostraram o Brasil pro mundo. Acho que Guilherme Tâmega com certeza ele é o grande nome pelos títulos, pelas viagens, pelos vídeos, pelos patrocínios e tudo que ele fez e tem feito até hoje, acho que ele é o grande nome e também eu citaria Mariana Nogueira que foi uma das melhores mulheres surfando até hoje.

Como você vê o esporte hoje e como imagina o futuro do bodyboard no Brasil?

Eu sou um cara muito otimista sempre. Quem está do meu lado às vezes até ri de mim, porque pra mim tudo está bom ou tudo vai melhorar. Na verdade eu não minto, pra mim hoje eu tenho patrocínio de altas marcas, consigo viver do esporte, eu vivo só do esporte. Tudo o que eu faço, toda minha fonte de renda vem do esporte, dos meus patrocínios ou da minha escolinha. Então, eu acho que hoje, se eu for olhar o que eu vivo, o esporte está alucinante. O bodyboard está bem, obviamente que não é uma realidade para todos os outros profissionais ou a maioria deles, mas eu acho que se todo mundo começar a trabalhar de um jeito profissional mesmo… Quando eu comecei a trabalha de uma forma bem profissional, bem séria, deixando de lado o que não era bom pro esporte, focando no desenvolvimento do esporte, e pessoal também, eu consegui um bom resultado. Então, eu acho que o esporte é um esporte alucinante, é um esporte que pode chegar e pode explodir a qualquer momento. Eu tenho essa expectativa, ainda mais agora com o crescimento do surf, acho que qualquer hora alguém pode chegar e olhar e a parada pode crescer e explodir mesmo. Eu acho que o mais importante é a galera não ficar esperando isso: alguém chegar e fazer. Acho que seria o ideal pra acontecer é todo mundo trabalhar, seja como atleta ou como organizador de campeonato ou como empresário específico da marca… É trabalhar e depois que todo mundo trabalha vai colher os frutos. Eu tenho colhido, tenho plantado muito, ainda vou colher muita coisa, então eu acho que é por aí… Todo trabalhador ele é digno do seu salário, então eu acho que às vezes a gente tem que esquecer um pouco o esporte do lado, focar no nosso, dar o gás, trabalhar e colher o que tem que ser colhido. Eu vejo o esporte muito bem hoje e vivo muito bem do esporte hoje e acho que vai melhor sim, principalmente em relação a grandes eventos. Enfim, tenho grandes expectativas.

Pra finalizar, manda uma mensagem pra galera que faz o bodyboard no RN.

Queria mandar um abração para todos os bodyboarders do Rio Grande do Norte. Queria dizer que tenho um sonho de conhecer essa área, de conhecer essa galera, de surfar com vocês e na primeira oportunidade que eu tiver, vou amarradão. Acho que essa é uma época boa, no verão sempre rola uns swells aí irados e estou esperando uma oportunidade pra fazer isso. Fico feliz de saber que o trabalho que eu faço aqui no meu cantinho, que parece às vezes que é só pra mim, saber que está chegando aí, no outro lado do nosso país, que é grande pra caramba, fico muito feliz de saber que isso reflete até aí também. Queria que a galera focasse, se a galera olha pra cá e vê as coisas que a gente tem feito aqui, colhe o que é bom, busca as coisas que você pode tomar bom proveito. Se existem algumas coisas ruins também sendo plantadas aqui, esquece isso, deixe isso de lado, mas pega o que é bom. Eu tento fazer sempre isso, eu olho pra todo mundo e tiro de todo mundo uma coisa boa e esqueço, apago tudo aquilo que não é bom e tento ser uma pessoa melhor assim. É isso, galera. Um abração. Deus abençoe todo mundo aí. Valeu!

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